Observo minha sobrinha entrar pela sala arrastando um urso de pelúcia. Observo seu pequenino rosto que é a cópia de minha irmã. Olho como os seus olhos são iguais aos dela, seu cabelo, sua boca. Tudo me lembra minha irmã quando pequena. Ela se aproxima e me abraça, como de comum. Logo em seguida, senta-se ao meu lado. Minha irmã fixa os olhos em mim.
- É uma pena que você não tenha um filho.
Simplesmente concordo com a cabeça. Minha sobrinha põe a mão sobre a minha e eu a observo. Tão pequena em relação á minha. Tão perfeita. Dedos rechonchudos e pálidos. E em um segundo lembro-me do dia em que ela nasceu. Lembro-me de como ela ficava com os olhos abertos olhando para mim silenciosamente quando eu ia visitar minha irmã. E aqui está ela, pequena, mas bem maior, e um dia será maior ainda e no final de tudo, será, mais uma pessoa.
Á noite, minha irmã faz um jantar, mas apesar de ter comido um bom tanto acabo vomitando tudo. Quando saio do banheiro, encontro minha sobrinha parada defronte á porta. Simplesmente a ignoro e em seguida vou para o sofá. Minha irmã pôs um colchão na sala para mim dormir, mas não consigo. Passo boa parte da noite me revirando no colchão até que decido ir embora. Saiu silenciosamente pela porta da frente, carregando comigo apenas as chaves do carro. Quando eu abro a porta, ouço o som de um soluço atrás de mim. Viro de volta e encontro minha irmã chorando olhando pra mim.
- Eu te aviso quando chegar. - Digo.
Ela apenas concorda com a cabeça.
Avanço pela estrada á noite enquanto sinto o frio em minha pele. Meus lhos estão cansados, meu estomago está embrulhado. Diversas vezes eu paro para chorar e outras para vomitar á beira da estrada. E nesse ciclo viciante, eu dirijo até o amanhecer, quando por fim, paro o carro no meio de uma estrada vazia e apoio a cabeça no volante. Choro como se a minha garganta fosse explodir, e depois do choro, como sempre, vem a tranquilidade.
Ouço o som dos pássaros cantando ao amanhecer. E ainda de cabeça baixa, vejo a luz do sol adentrar o carro. Elevo a minha cabeça e vejo o sol nascer ao horizonte, detrás das colinas. Gigante. Brilhando. Aquecendo. Trazendo o conforto que nem mesmo minha mãe, minha irmã ou minha sobrinha conseguiram me trazer. E eu não mais me senti o fruto de um mundo cujo existia simplesmente por questões favoráveis, não mais me sentia como apenas um.
E então não importava mais se eu ia morrer, se eu ia viver, se eu iria ter filhos, se eu iria me casar, se eu seria alguém valorizado... Eu sabia quem eu era, e eu sabia o motivo pelo qual eu existia. Eu havia encontrado todas as respostas para a minha pergunta, no céu. No sol. Na maior maior criação de todas, no símbolo, no sinal. No calor. O céu. O Amanhecer. A vida.
Eu.
Era.
A.
Vida.





