CÉU: PARTE 1: MANHÃ


    Pensei na minha mãe e o tanto que ela se esforçou para dar o melhor pra mim. Pensei no meu pai, que sempre me ensinou á ser um homem de valor. Lembrei da minha irmã, que eu critiquei tanto por não fazer faculdade, mas que hoje tem um belo esposo e três lindos filhos. Lembrei da minha ex-mulher, que disse que eu ainda ia pagar por tudo o que eu fiz. E então, tudo isso era o simples reflexo do nada. Eu era o nada. Eu era o vácuo.
    Câncer de estômago. Surpreendi-me ao ver que não era de pulmão, pois sinceramente eu fumo mais de quê eu falo. E então, eu não sei o que eu senti. Foi uma mistura de medo, melancolia e solidão. O mundo era frio. O mundo era um lugar terrível. E eu, eu ia morrer da maneira mais patética possível: com um câncer, do mesmo modo que uma geração de personagens da literatura. Nem sequer na minha morte eu poderia ser algo diferente. Não! Eu seria apenas mais um numa lista gigantesca de pacientes ao redor do mundo.
        Minha mãe chegou á minha casa uma hora depois. Eu já tinha contado tudo por telefone. Ela me abraçou e me olhou sem dizer. Ela já me conhecia. Palavras do tipo “você vai melhorar, você vai vencer”, não funcionam comigo. Ao invés disso, ela simplesmente me abraçou, e o abraço foi melhor que todas as palavras do mundo. Não chorei. Não consegui chorar. Estava chocado demais.
    Era tudo tão surreal! Você nunca imagina que pode estar morrendo. Você sempre procura fugir de pensamentos que se relacionem com uma suposta sensação de estar morrendo. E de repente, aquilo que você leu nos livros, aquilo que você vê nos documentários, e nas reportagens de domingo no “Fantástico”, começa á acontecer com você. E então, o pânico aparece, e então, você é um nada.
­­— O que você vai fazer? ­— Pergunta minha mãe.
    Eu dei de ombros. Estou sentado no chão com as costas apoiadas ao sofá. Minha mãe faz cafuné na minha cabeça, mas ao invés de eu me acalmar, tudo o que eu consigo pensar é que logo, logo eu terei que cortar todo o meu cabelo.
— É só… confiar na medicina. — Eu disse.
    Minha mãe suspirou. Eu tinha puxado á ela. As lágrimas simplesmente escorriam de seu rosto, mas eu não ouvia um gemido sequer, e a sua voz continuava tão limpa como sempre.
— Eu te amo.
— Eu sei disso e não ajuda.
    Minha mãe não respondeu.
— Eu quero ficar sozinho. — Eu disse.
    Minha mãe simplesmente saiu. Eu continuei sentado. Eu não pensava, eu não reagia. Eu não sabia o que fazer. Até que a luz da manhã refletiu na janela. A luz do sol adentrou o cômodo escuro e foi diretamente aos meus olhos. E então, só então, veio um pensamento á minha cabeça. Algo como “eu aposto que você consegue”. Eu ri e em seguida peguei o querosene e todos os meus livros.

   Nenhuma informação. Nenhuma palavra. Nenhuma obra adiantaria. No fim das contas, nós fazemos as coisas por prazer e não achando que elas irão nos mudar. Por isso, eu deixei queimar.

15 comentários:

  1. Eu achei ótima essa escrita, e a história ficou bem pensada. Quero saber o que acontecerá depois ^^
    photo-and-coffee.blogspot.com

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  2. Nossa, que conto emocionante!
    Já pensou em escrever para alguma antologia?
    Sério você tem talento
    http://surejustnot.blogspot.com.br/

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  3. Fiquei sem palavras. Não posso deixar de contar que meu olhos encheram-se de lágrimas, seu conto foi emocionante.
    Com certeza vou estar esperando pelas próximas partes!
    Um abraço, l0nely-star.blogspot.com.br

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  4. Olá, Tom.
    Quanto tempo não venho aqui...
    Adorei o texto, muito bem escrito e envolvente.
    Até mais. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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  5. Oi, Tom! Acabei de ler o prólogo e a primeira parte de "Céu"! Gostei muito! Você escreve muito bem, parabéns! Espero poder ter tempo para acompanhar as outras partes de sua história, pois fiquei com muita vontade de saber o que vai acontecer.

    Abraço

    http://tonylucasblog.blogspot.com.br/

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  6. Tom, eu só sei que está me sugando. Quero saber da continuação, e já estou sentindo a história. Espero a Parte 2!

    Gabryel Fellipe & Algo, agora em parceria com Rudimar Baroncello

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  7. Que texto lindo, quero ver a continuação, pelo visto vai ter um ótimo final!
    Beijoos ♡ || Caramelos Encantados

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  8. Porra, quero continuação! Quero ver ele aproveitando a vida PRA CARALHO okay? okay
    - um monte de estrelas

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  9. Caraaaaaaaca! Eu acho que o impacto de uma notícia assim deve deixar as pessoas meio desnorteadas, mas aposto que com o tempo esse personagem aprenderia a lidar com isso e com esse impulso destrutivo!

    Um beijo
    www.reinodascoisas.com

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  10. Olá, meu caro.
    Primeiramente gostaria de pedir perdão pela demora em responder o seu recado. Eu estive fora e apenas agora lembrei que eu havia feito um blog e bom, digamos que você é muito bem vindo aqui. Eu creio que é bem possível que eu comece a postar algumas coisas úteis que possam confirmar as suas expectativas e não se importe em comentar muito. Eu aprecio pessoas que dão sua opinião e acima de tudo, dão a mesma de maneira elaborada e bem pensada. E a respeito do seu texto: Eu gostei bastante. A escrita deixa tudo bem claro e consegue transmitir a angústia que se passa no cenário. Eu também gosto de escrever esses tipos de texto e digo que espero pela continuação em breve. Enfim, tenha um bom dia. Agora eu quem escrevi demais no meu comentário, notou? Haha.

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  11. Que texto intenso. Pois é situações extremas, pedem atitudes igualmente extremas. Às vezes a melhor coisa é exteriorizar o que sentimos por dentro, como o personagem do seu texto.

    thoughts-little-princess.blogspot.com

    te indiquei para uma tag lá no meu blog.

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  12. Awwn amei essa nova web novela (ou sei lá como eles chamam) sua! É uma boa escrita e o tema é tão comovente, já li muitos escritos baseados nesse tema mas é sempre uma novidade, pois são histórias diferentes. É muito triste, mas nos faz refletir.
    Já irei ler a segunda parte, está se saindo bem o/

    uma-quase-perfeita.blogspot.com

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  13. Nossa, muito boa a escrita e a realidade da situação. Dia 30 de outubro desse mês vai fazer um ano que eu retirei um tumor da glândula hipófise, e sei como é a sensação de receber uma notícia dessas. Não desejo para ninguém!
    http://www.vicioemlivros.com/

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  14. Oi Tom!

    Sempre pensamos em morrer de uma forma natural, ou até mesmo não pensamos em nada relacionado à morte. Tudo o que vemos na TV e na internet parece tão longe de nós.

    Isso só me faz pensar: Viva cada dia intensamente, pois o amanhã não existe.

    Um abraço ♥

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  15. Poxa, que choque de sentimentos que esse texto me causou.
    Tenho síndrome do pânico e conheço a sensação do personagem de "achar surreal" e a de se achar um nada. Muitas vezes você quer fugir de si mesmo e a realidade te desperta pra vida. Vou ler a continuação, parabéns pela escrita~

    http://euclarisse.blogspot.com.br

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